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Tribalistas: de 2002 a 2017 (por Esdras R. Andrade)

  • Sep 9, 2017
  • 3 min read

Algumas coisas na cultura musical brasileira realmente me irritam. Já há algum tempo tenho advogado a tese de que o brasileiro, na verdade, não gosta de música. Me refiro, é claro, ao brasileiro médio, o povão, sem excluir de minha análise as muitas pessoas deste país que realmente ouvem música com prazer e seriedade.


Mas a realidade é que, afora estes poucos, brasileiro é aquele indivíduo que finge gostar de alguma música, geralmente para disfarçar interesses outros. A maioria das pessoas vão aos shows musicais mais populares com a real intenção de encher a cara e satisfazer sua lascívia com outras pessoas e até seres de outras espécies ou substâncias.


Este descaso disfarçado com a música é notado não apenas nestas atitudes mais toscas, mas também em várias posturas mais “cult” que escondem uma gritante ignorância musical.


Agora tenho em mente aquelas pessoas que, a despeito de não frequentarem shows de “safadões” e “estigados” e atém ouvirem coisas de maior qualidade, o fazem simplesmente para ostentar uma certa superioridade intelectual ou para darem um ar de “multiculturalismo” (isto é o que mais me irrita).


Pense bem. Já notou como é comum, em uma roda de música de jovens, todo mundo balançar e “curtir” quando se toca um reggae, quando se sabe que quase ninguém ali conhece nada sobre o gênero e suas ramificações históricas e geográficas? Virou doutrina no Brasil que gente “moderna” e “descolada” tem que gostar de reggae, ainda que nada saiba sobre isto.


Outra moda brasileira muito chata é a história de que todo “intelectual” tem que ouvir Chico, Caetano e Gil. Novamente, geralmente quase nada se sabe sobre a obra destes três.


Este fenômeno se reflete também nos artistas que vemos “surgir” no Brasil. Embebidos por estes “padrões” musicais de popularidade, as novas bandas e cantores geralmente reproduzem estas coisas em suas apresentações. Penso que por isso é quase religioso no brasil que cantor da noite tem que tocar “Segundo Sol”, de Cássia Eller, “Tempo Perdido”, de Legião Urbana e “Primeiro Erros”, do Capital Inicial, sob pena de praticamente não terem se apresentado.


É claro que nas rodinhas mais “teens” tem que rolar “Is This Love” de Bob Marley, pra não fugir ao padrão jamaicano/brasileiro.


O maior problema é que bandas e artistas que realmente têm alguma qualidade acabam por, com responsabilidade própria ou não, serem inseridos nesta cultura musical e são reduzidos ao mero mainstream, geralmente sintetizado em uma ou duas canções.


Agora é que entro no assunto real deste artigo.


O conhecidíssimo trio brasileiro Tribalistas me parece ser um desses casos. O trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown lançou seu primeiro disco em 2002 e, após um longo hiato de 15 anos, voltam com um segundo disco (curiosamente, os dois discos possuem o mesmo nome homônimo: “Tribalistas”).


Os Tribalistas embalaram vários hits em seu primeiro álbum, como Velha Infância, Carnavalia e Já Sei Namorar e ganharam por este trabalho, discos de diamante e platina no Brasil e Portugal.


Ainda lembro dos tempos do primeiro disco, em que quase todo mundo cantava estes sucessos. A grande popularidade dos Tribalistas acabou por, a meu ver, esconder um bocado da qualidade do trio brasileiro. Nada de exageros. Tribalistas não é nenhum novo Bee Gees ou Trio Los Panchos (falando de trios). Entretanto, penso ser inescapável reconhecer a técnica exímia e beleza rara da voz de Marisa Monte.


Quanto aos cabrones, em que pese eu não considere Arnaldo e Carlinhos grandes músicos (nem cantores), tenho que reconhecer que as vozes de Antunes, uma oitava abaixo de Marisa Monte, e as percussões de Brown contribuem decisivamente para dar um ar “world music” aos dois trabalhos dos Tribalistas, com resultados até interessantes em várias faixas.


Falando nisso, ao ouvir o segundo disco, lançado em agosto deste ano, destaco as faixas Diáspora, Fora da Memória e Baião do Mundo. Em essência, o trabalho não se diferencia muito (ou em nada) do primeiro trabalho, o que acaba sendo bom se você encarar o novo álbum como uma volta a 2002 após 15 anos, mas não contribui muito se pensarmos na possibilidade de continuidade da discografia.


Merece destaque também a participação da boa cantora portuguesa Carminho na última faixa, Os Peixinhos.


Claro que a galerinha "cult" do Brasil ficou ouriçada quando do anúncio do "retorno" dos Tribalistas (ainda que os mesmos jamais encarem este trabalho como uma "volta"). Mais uma vez, um grupo com certa qualidade é condenado, até com certa complacência, a figurar como um dos "beautiful people" da cultura musical brasileira.


Ouça os discos e tire a prova. Discorda de mim? Entre em contato com o Aeroplane, me xingue, me vaie... mas acesse nosso conteúdo.


Boas audições!


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